01/04/2004
Convite
O insólito visitante entrou descabelado, e disse-me, sem preâmbulos:
- Você precisa falar!
Não entendi bem. Mas, persuadido do seu poder, ele se projetava para mim, e continuava:
- Precisa falar! Venha comigo, venha!
Mas falar onde? Falar o quê? Pensei que estava sonhando. Ele, porém, diz sem sombra de dúvida:
- “Fale o que quiser. O que é preciso é que fale. Que diga qualquer coisa! Muitas coisas! Que faça um discurso!” E já me puxava pelo braço, com uma gentileza feroz.
- Um discurso! A palavra fez-me cair em cheio na realidade.
- “Que idéia faz você de um discurso?” - perguntei-lhe.
“Não vamos discutir. Não temos tempo a perder! Venha depressa! Você chega, diz umas coisas - os escritores sempre sabem dizer coisas! - põe umas palavras assim... (pelo movimento das mãos, explicando-as, deviam ser palavras seletas, impressionantes, infalíveis...) - todos batem palmas, e acabou-se...”
Concentrei toda a minha paciência para doutriná-lo:
“Meu amigo, sente-se e escute: o discurso é uma coisa grave. Pressupõe um auditório necessitado de ouvir alguma coisa importante, e - o que ainda é mais sério - a existência de um orador que possui essa coisa importante e é capaz de dizê-la! E de dizê-la bem. Tudo muito difícil... Imagine que eu tivesse recebido uma revelação miraculosa com a qual - já não digo que pudesse... - imaginasse salvar o mundo. Acredita você que, só por enunciá-la o mundo ficasse realmente salvo? Tão grande será sua crença no discurso que, para você, uma palavra dita eqüivalha a um mundo realizado? E existirá em algum lugar um mundo pronto, um belo mundo perfeito que saia do seu esconderijo pela ação mágica de uma criatura que fala, com todas as suas fraquezas individuais, diante de um grupo de fraquezas coletivas?”
“Ah, - interrompeu-me o visitante, - seja boazinha, não queira coisas tão admiráveis... Ninguém quer também transformar o mundo assim de repente... Quem lhe falou nisso? Queremos é um discurso que entusiasme, que eletrize... Há momentos em que se precisa falar na Liberdade, na Fraternidade. O resto é para depois...”
“Bem, meu amigo, então faça o discurso, agora... Eletrize e entusiasme, e deixe-me para depois, para quando for o tempo de realizar. Porque de ouvir estou cansada. Estou cansada de ouvir essas belas palavras, e muitas outras.
Já me parecem tão gastas que não podem produzir nenhum efeito. Lembre-se: quando andávamos na escola, não eram essas palavras que nos diziam? Havia discursos, não havia? Há quantos séculos já vinham fazendo discursos desses? Depois, fomos a todas as conferências, não fomos? E que ouvimos? Essas mesmas palavras, não é? E nos Parlamentos? E nos púlpitos? E nas Academias? E nos jornais? E nas orações de formatura? E nas comemorações cívicas? E nas homenagens? E nos necrológicos? Sempre o mesmo. Estou cansada, meu amigo, de ouvir falar em Liberdade e Fraternidade. E você quer que eu entre nessas fileiras, que venha a repetir o que todos já disseram... Não...”
O visitante era implacável: “De tanto ouvir... pouco a pouco...”
“Ah, não, meu amigo. Basta de discursos. É como V. dizia, quando entrou: ‘põem-se umas palavras assim... todos batem palmas e acabou-se’. Tudo isso vai sendo automático, e eu ando reagindo contra a tentação do século que é precisamente transformar o homem em máquina. Eu não quero por palavras assim. (Assim como V. imagina que elas podem ser postas.) Não quero que ninguém bata palmas. As palmas são também um hábito, no fim dos discursos, como no fim dos espetáculos. Um mau hábito. Como o de palitar os dentes, depois das refeições... E não quero nada disso porque, como V. tão claramente sabe, uma vez ditas as palavras e batidas as palmas, - acabou-se. Acabou-se o quê? O discurso? Não: acabou-se a lembrança das palavras, acabou-se o compromisso do público com o orador. Acabou-se uma parcela de tempo, de vida. Perdeu-se, em lugar de ganhar-se. Envelheceu-se inutilmente. E o que eu queria era criar tempo, vida, para mim e para os outros.”
“Criatura difícil...”
“Muito difícil. Tão difícil que desejaria uma república de surdos-mudos onde todos fossem solidários e se entendessem, e trabalhassem, e progredissem, isto é: fossem melhores espiritualmente e socialmente, sem ser preciso jamais ninguém subir a um estrado, e clamar: “Meus senhores, precisamos ser bons, ser amigos, viver em paz, desfrutar uma certa liberdade...”
“De modo que as palavras não adiantam nada...”
“Parece que não. Pois não é por falta de palavras que a humanidade está como V. vê. Tudo já foi dito e escrito, e é mesmo um pouco ofensivo à memória dos que nos precederam estar repetindo essas coisas. Consulte os livros. Poderemos acaso dizer melhor? O mal é que depois dos discursos têm vindo sempre as palmas, e depois das palmas, o esquecimento. Todos gostam do programa, e vão dormir, esperando que no dia seguinte a Fraternidade e a Liberdade apareçam nos seus quintais, carregadas de frutos. V. acha que eu não paguei ainda todos os meus impostos de ilusão? Ah, meu amigo, se V. persevera em arranjar um discurso, procure outro orador. Eu só diria: ‘Meus senhores, o que havia para dizer já está mais do que dito. Tenham a bondade de refletir e executar, se estão desejando sinceramente fazer alguma coisa.’ Mas eu bem sei que isto não é maneira de se receber um convite. Embora seja tão clara, tão justa...”
Cecília de Meireles
O insólito visitante entrou descabelado, e disse-me, sem preâmbulos:
- Você precisa falar!
Não entendi bem. Mas, persuadido do seu poder, ele se projetava para mim, e continuava:
- Precisa falar! Venha comigo, venha!
Mas falar onde? Falar o quê? Pensei que estava sonhando. Ele, porém, diz sem sombra de dúvida:
- “Fale o que quiser. O que é preciso é que fale. Que diga qualquer coisa! Muitas coisas! Que faça um discurso!” E já me puxava pelo braço, com uma gentileza feroz.
- Um discurso! A palavra fez-me cair em cheio na realidade.
- “Que idéia faz você de um discurso?” - perguntei-lhe.
“Não vamos discutir. Não temos tempo a perder! Venha depressa! Você chega, diz umas coisas - os escritores sempre sabem dizer coisas! - põe umas palavras assim... (pelo movimento das mãos, explicando-as, deviam ser palavras seletas, impressionantes, infalíveis...) - todos batem palmas, e acabou-se...”
Concentrei toda a minha paciência para doutriná-lo:
“Meu amigo, sente-se e escute: o discurso é uma coisa grave. Pressupõe um auditório necessitado de ouvir alguma coisa importante, e - o que ainda é mais sério - a existência de um orador que possui essa coisa importante e é capaz de dizê-la! E de dizê-la bem. Tudo muito difícil... Imagine que eu tivesse recebido uma revelação miraculosa com a qual - já não digo que pudesse... - imaginasse salvar o mundo. Acredita você que, só por enunciá-la o mundo ficasse realmente salvo? Tão grande será sua crença no discurso que, para você, uma palavra dita eqüivalha a um mundo realizado? E existirá em algum lugar um mundo pronto, um belo mundo perfeito que saia do seu esconderijo pela ação mágica de uma criatura que fala, com todas as suas fraquezas individuais, diante de um grupo de fraquezas coletivas?”
“Ah, - interrompeu-me o visitante, - seja boazinha, não queira coisas tão admiráveis... Ninguém quer também transformar o mundo assim de repente... Quem lhe falou nisso? Queremos é um discurso que entusiasme, que eletrize... Há momentos em que se precisa falar na Liberdade, na Fraternidade. O resto é para depois...”
“Bem, meu amigo, então faça o discurso, agora... Eletrize e entusiasme, e deixe-me para depois, para quando for o tempo de realizar. Porque de ouvir estou cansada. Estou cansada de ouvir essas belas palavras, e muitas outras.
Já me parecem tão gastas que não podem produzir nenhum efeito. Lembre-se: quando andávamos na escola, não eram essas palavras que nos diziam? Havia discursos, não havia? Há quantos séculos já vinham fazendo discursos desses? Depois, fomos a todas as conferências, não fomos? E que ouvimos? Essas mesmas palavras, não é? E nos Parlamentos? E nos púlpitos? E nas Academias? E nos jornais? E nas orações de formatura? E nas comemorações cívicas? E nas homenagens? E nos necrológicos? Sempre o mesmo. Estou cansada, meu amigo, de ouvir falar em Liberdade e Fraternidade. E você quer que eu entre nessas fileiras, que venha a repetir o que todos já disseram... Não...”
O visitante era implacável: “De tanto ouvir... pouco a pouco...”
“Ah, não, meu amigo. Basta de discursos. É como V. dizia, quando entrou: ‘põem-se umas palavras assim... todos batem palmas e acabou-se’. Tudo isso vai sendo automático, e eu ando reagindo contra a tentação do século que é precisamente transformar o homem em máquina. Eu não quero por palavras assim. (Assim como V. imagina que elas podem ser postas.) Não quero que ninguém bata palmas. As palmas são também um hábito, no fim dos discursos, como no fim dos espetáculos. Um mau hábito. Como o de palitar os dentes, depois das refeições... E não quero nada disso porque, como V. tão claramente sabe, uma vez ditas as palavras e batidas as palmas, - acabou-se. Acabou-se o quê? O discurso? Não: acabou-se a lembrança das palavras, acabou-se o compromisso do público com o orador. Acabou-se uma parcela de tempo, de vida. Perdeu-se, em lugar de ganhar-se. Envelheceu-se inutilmente. E o que eu queria era criar tempo, vida, para mim e para os outros.”
“Criatura difícil...”
“Muito difícil. Tão difícil que desejaria uma república de surdos-mudos onde todos fossem solidários e se entendessem, e trabalhassem, e progredissem, isto é: fossem melhores espiritualmente e socialmente, sem ser preciso jamais ninguém subir a um estrado, e clamar: “Meus senhores, precisamos ser bons, ser amigos, viver em paz, desfrutar uma certa liberdade...”
“De modo que as palavras não adiantam nada...”
“Parece que não. Pois não é por falta de palavras que a humanidade está como V. vê. Tudo já foi dito e escrito, e é mesmo um pouco ofensivo à memória dos que nos precederam estar repetindo essas coisas. Consulte os livros. Poderemos acaso dizer melhor? O mal é que depois dos discursos têm vindo sempre as palmas, e depois das palmas, o esquecimento. Todos gostam do programa, e vão dormir, esperando que no dia seguinte a Fraternidade e a Liberdade apareçam nos seus quintais, carregadas de frutos. V. acha que eu não paguei ainda todos os meus impostos de ilusão? Ah, meu amigo, se V. persevera em arranjar um discurso, procure outro orador. Eu só diria: ‘Meus senhores, o que havia para dizer já está mais do que dito. Tenham a bondade de refletir e executar, se estão desejando sinceramente fazer alguma coisa.’ Mas eu bem sei que isto não é maneira de se receber um convite. Embora seja tão clara, tão justa...”
Cecília de Meireles
A ARTE ETERNA
Um dos louváveis subprodutos do cacarejo freudiano é a descoberta de que mentir, na maioria dos casos é um ato involuntário e inevitável — tão inevitável quanto piscar os
olhos quando se acende uma lâmpada, ou pular se alguém joga uma bomba aos nossos pés. Nos piores casos, esta necessidade toma um caráter totalmente patológico e, assim, torna-
se tão inocente quanto à ciática. Faz parte da bagagem mórbida dos histéricos e dos neurastênicos: mentem por um esforço convulsivo para se ajustarem a um ambiente tão hostil, que não conseguem suportar. Todos nós sofremos pressões, mas eles sofrem mais. Em nós, a coisa funciona através do complexo de inferioridade, do qual nenhum homem escapa.
Aquele a quem falta completamente este complexo só pode ser insano: a satisfação com sua situação no mundo é indistinguível de uma ilusão de grandeza. A grande maioria de nós —
todos, bem entendido, que são normais — atravessa a vida em constante revolta contra nossas limitações, objetivas e subjetivas. Nosso pensamento consciente é largamente devotado a planos e especificações para fazer uma melhor figura na sociedade humana, mas, em nosso inconsciente, a coisa se processa mais firme e poderosamente. Nenhum homem sadio, em
seu íntimo, está contente com seu destino. É torturado por sonhos e imagens como uma criança se tortura pelo pensamento de como seria gostoso viver numa loja de doces e ter
dois estômagos.
Mentir é o produto da ânsia inconsciente de realizar tais visões, e se a censura — a consciência — impede que a mentira seja expressa em palavras, ela sairá de qualquer jeito, por atos menos ou mais plausíveis. Todos nós representamos na
presença de nossos semelhantes, como até os poetas já perceberam. Nenhum homem se dispõe a revelar o seu verdadeiro caráter e, sobretudo, suas verdadeiras limitações como cidadão e como cristão, sua verdadeira perversidade ou imbecilidade — nem para seus amigos, nem mesmo para sua mulher. A autobiografia sincera é, portanto, uma contradição em
termos: no momento em que um homem avalia-se a si próprio, mesmo in peito, banha-se de ouro ou transforma-se num afresco. A esposa deste homem, por mais realista que seja a
sua visão, acaba sempre louvando-o no fim, porque o pior que ela vê nele é ainda melhor do que ele realmente é. O que ela vê, mesmo nos momentos de mais surpreendentes confiança e
revelação domésticas, não é absolutamente o homem autêntico — mas um composto de parte do homem autêntico e parte da sua projeção de um ideal. O homem mais respeitado
por sua mulher será aquele que tornar esta projeção mais vívida — ou seja, aquele que for o mais ousado e mais cativante mentiroso. Ele não poderá, naturalmente, enganá-la de todo,
mas, se for hábil, poderá tapeá-la o suficiente para fazê-la feliz.
Omnis homo mendax, todo homem mente, disse o salmista. Até aí os freudianos simplesmente o papagueiam. O que há de novo no evangelho de Freud é a idéia de que mentir
é instintivo, normal e inevitável, e a de que o homem é forçado a isto pela sua própria vontade de viver. Esta doutrina ex-purga a coisa de certos antigos embaraços e restaura a inocência no coração. Pense numa mentira como uma compulsão neurótica, e estará pensando nela até com carinho. Não preciso acrescentar, espero, que esta transferência da mentira, do departamento do livre arbítrio para o do determinismo, de
forma alguma a exime das penas que o mentiroso venha a sofrer, caso seja apanhado. Os defensores do livre arbítrio sempre cometem o erro de presumir que os deterministas são
uns canalhas tentando escapar às justas conseqüências de suas transgressões. Não há fundamento nesta suposição. Se eu mentir no banco das testemunhas e for flagrado pelo juiz, serei imediatamente engaiolado por perjúrio, apesar de ser impotente ante a minha compulsão. Aqui, a justiça se recusa absolutamente a distinguir entre um infortúnio e a má intenção: só se preocupa com o que foi dito abertamente. Mas, à medida que a jurisprudência se torna mais inteligente e civilizada, ela pode mudar a lei em benefício dos mentirosos — ou
seja, de toda a humanidade. A ciência é inflexivelmente determinista e já começou a implantar o determinismo na moral. Um belo dia destes, algum psicanalista pode acabar na cadeia tentando provar que o perjúrio é uma compulsão tão neurótica quanto marcar o ritmo com os pés durante um concerto ou contar os postes ao longo de uma estrada.
Infelizmente, não levo muita fé em milênios e não vou predizer formalmente nada. E nem pronunciar qualquer julgamento moral, contra ou a favor: julgamentos morais, como
dizia o velho Friedrich, são estranhos à minha natureza. Mas não devemos esquecer que a mentira, per se, não é proibida pelo código moral do cristianismo. As Sagradas Escrituras a
ignoram cinicamente, assim como os estatutos de todos os países civilizados silenciam a seu respeito. Só os chineses a consideram uma ofensa penal. O perjúrio, naturalmente, é
proibido em toda parte, assim como qualquer embuste que leve à fraude e despoje alguém de sua propriedade. Mas aquela forma muito mais comum de esticar a verdade, e que
tem o baixo objetivo de limpar a dignidade pessoal do mentiroso, é vista com olhos até piedosos. O mesmo acontece com aquela forma de mentira cujo objetivo é ajudar outra pessoa.
Neste caso, mentir pode até adquirir a estatura de uma positiva virtude. O falecido rei Edward VII, então príncipe de Galês, ficou popularíssimo em toda a cristandade por escorregar num descarado perjúrio. Convidado ao tribunal para dar o seu testemunho de expert a respeito de um caso de adultério, ele mentiu como um cavalheiro, como diz a lenda, para proteger a mulher. É verdade que sua mentirinha resultou intrinsecamente inútil: ninguém acreditava que a dama fosse inocente. Não obstante, todos os cristãos aplaudiram o perjuro por suas boas intenções, inclusive o juiz, momentaneamente esquecido de seu juramento de combater falsos testemunhos por todos os recursos forenses. Todos nós, os vermes, ocasionalmente nos defrontamos com as mesmas alternativas ao alcance de Edward: podemos dizer a verdade, pouco ligando para as conseqüências; ou podemos suavizá-la e sofisticá-la, para torná-la mais humana e tolerável.
Para um homem habituado a buscar e dizer a verdade, o presidente dos Estados Unidos. Ambos os empregos são reservados para homens brindados por Deus com um gênio extraordinário para embrulhar os fatos amargos da vida com bandagens de auto-ilusão.
—1918
Um dos louváveis subprodutos do cacarejo freudiano é a descoberta de que mentir, na maioria dos casos é um ato involuntário e inevitável — tão inevitável quanto piscar os
olhos quando se acende uma lâmpada, ou pular se alguém joga uma bomba aos nossos pés. Nos piores casos, esta necessidade toma um caráter totalmente patológico e, assim, torna-
se tão inocente quanto à ciática. Faz parte da bagagem mórbida dos histéricos e dos neurastênicos: mentem por um esforço convulsivo para se ajustarem a um ambiente tão hostil, que não conseguem suportar. Todos nós sofremos pressões, mas eles sofrem mais. Em nós, a coisa funciona através do complexo de inferioridade, do qual nenhum homem escapa.
Aquele a quem falta completamente este complexo só pode ser insano: a satisfação com sua situação no mundo é indistinguível de uma ilusão de grandeza. A grande maioria de nós —
todos, bem entendido, que são normais — atravessa a vida em constante revolta contra nossas limitações, objetivas e subjetivas. Nosso pensamento consciente é largamente devotado a planos e especificações para fazer uma melhor figura na sociedade humana, mas, em nosso inconsciente, a coisa se processa mais firme e poderosamente. Nenhum homem sadio, em
seu íntimo, está contente com seu destino. É torturado por sonhos e imagens como uma criança se tortura pelo pensamento de como seria gostoso viver numa loja de doces e ter
dois estômagos.
Mentir é o produto da ânsia inconsciente de realizar tais visões, e se a censura — a consciência — impede que a mentira seja expressa em palavras, ela sairá de qualquer jeito, por atos menos ou mais plausíveis. Todos nós representamos na
presença de nossos semelhantes, como até os poetas já perceberam. Nenhum homem se dispõe a revelar o seu verdadeiro caráter e, sobretudo, suas verdadeiras limitações como cidadão e como cristão, sua verdadeira perversidade ou imbecilidade — nem para seus amigos, nem mesmo para sua mulher. A autobiografia sincera é, portanto, uma contradição em
termos: no momento em que um homem avalia-se a si próprio, mesmo in peito, banha-se de ouro ou transforma-se num afresco. A esposa deste homem, por mais realista que seja a
sua visão, acaba sempre louvando-o no fim, porque o pior que ela vê nele é ainda melhor do que ele realmente é. O que ela vê, mesmo nos momentos de mais surpreendentes confiança e
revelação domésticas, não é absolutamente o homem autêntico — mas um composto de parte do homem autêntico e parte da sua projeção de um ideal. O homem mais respeitado
por sua mulher será aquele que tornar esta projeção mais vívida — ou seja, aquele que for o mais ousado e mais cativante mentiroso. Ele não poderá, naturalmente, enganá-la de todo,
mas, se for hábil, poderá tapeá-la o suficiente para fazê-la feliz.
Omnis homo mendax, todo homem mente, disse o salmista. Até aí os freudianos simplesmente o papagueiam. O que há de novo no evangelho de Freud é a idéia de que mentir
é instintivo, normal e inevitável, e a de que o homem é forçado a isto pela sua própria vontade de viver. Esta doutrina ex-purga a coisa de certos antigos embaraços e restaura a inocência no coração. Pense numa mentira como uma compulsão neurótica, e estará pensando nela até com carinho. Não preciso acrescentar, espero, que esta transferência da mentira, do departamento do livre arbítrio para o do determinismo, de
forma alguma a exime das penas que o mentiroso venha a sofrer, caso seja apanhado. Os defensores do livre arbítrio sempre cometem o erro de presumir que os deterministas são
uns canalhas tentando escapar às justas conseqüências de suas transgressões. Não há fundamento nesta suposição. Se eu mentir no banco das testemunhas e for flagrado pelo juiz, serei imediatamente engaiolado por perjúrio, apesar de ser impotente ante a minha compulsão. Aqui, a justiça se recusa absolutamente a distinguir entre um infortúnio e a má intenção: só se preocupa com o que foi dito abertamente. Mas, à medida que a jurisprudência se torna mais inteligente e civilizada, ela pode mudar a lei em benefício dos mentirosos — ou
seja, de toda a humanidade. A ciência é inflexivelmente determinista e já começou a implantar o determinismo na moral. Um belo dia destes, algum psicanalista pode acabar na cadeia tentando provar que o perjúrio é uma compulsão tão neurótica quanto marcar o ritmo com os pés durante um concerto ou contar os postes ao longo de uma estrada.
Infelizmente, não levo muita fé em milênios e não vou predizer formalmente nada. E nem pronunciar qualquer julgamento moral, contra ou a favor: julgamentos morais, como
dizia o velho Friedrich, são estranhos à minha natureza. Mas não devemos esquecer que a mentira, per se, não é proibida pelo código moral do cristianismo. As Sagradas Escrituras a
ignoram cinicamente, assim como os estatutos de todos os países civilizados silenciam a seu respeito. Só os chineses a consideram uma ofensa penal. O perjúrio, naturalmente, é
proibido em toda parte, assim como qualquer embuste que leve à fraude e despoje alguém de sua propriedade. Mas aquela forma muito mais comum de esticar a verdade, e que
tem o baixo objetivo de limpar a dignidade pessoal do mentiroso, é vista com olhos até piedosos. O mesmo acontece com aquela forma de mentira cujo objetivo é ajudar outra pessoa.
Neste caso, mentir pode até adquirir a estatura de uma positiva virtude. O falecido rei Edward VII, então príncipe de Galês, ficou popularíssimo em toda a cristandade por escorregar num descarado perjúrio. Convidado ao tribunal para dar o seu testemunho de expert a respeito de um caso de adultério, ele mentiu como um cavalheiro, como diz a lenda, para proteger a mulher. É verdade que sua mentirinha resultou intrinsecamente inútil: ninguém acreditava que a dama fosse inocente. Não obstante, todos os cristãos aplaudiram o perjuro por suas boas intenções, inclusive o juiz, momentaneamente esquecido de seu juramento de combater falsos testemunhos por todos os recursos forenses. Todos nós, os vermes, ocasionalmente nos defrontamos com as mesmas alternativas ao alcance de Edward: podemos dizer a verdade, pouco ligando para as conseqüências; ou podemos suavizá-la e sofisticá-la, para torná-la mais humana e tolerável.
Para um homem habituado a buscar e dizer a verdade, o presidente dos Estados Unidos. Ambos os empregos são reservados para homens brindados por Deus com um gênio extraordinário para embrulhar os fatos amargos da vida com bandagens de auto-ilusão.
—1918
SIGMUND FREUD (1856-1939)
É digno de nota que, por pouco que os homens sejam capazes de existir isoladamente, sintam, não obstante, como um pesado fardo os sacrifícios que a civilização deles espera, a fim de tornar possível a vida comunitária. A civilização, portanto, tem de ser defendida contra o indivíduo, e seus regulamentos, instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa. Visam não apenas a efetuar uma certa distribuição da riqueza, mas também a manter essa distribuição; na verdade, têm de proteger contra os impulsos hostis dos homens tudo o que contribui para a conquista da natureza e a produção de riqueza. As criações humanas são facilmente destruídas, e a ciência e a tecnologia, que as construíram, também podem ser utilizadas para sua aniquilação.
Fica-se assim com a impressão de que a civilização é algo que foi imposto a uma maioria resistente por uma minoria que compreendeu como obter a posse dos meios de poder e coerção. Evidentemente, é natural supor que essas dificuldades não são inerentes à natureza da própria civilização, mas determinadas pelas imperfeições das formas culturais que até agora se desenvolveram. E, de fato, não é difícil assinalar esses defeitos. Embora a humanidade tenha efetuado avanços contínuos em seu controle sobre a natureza, podendo esperar efetuar outros ainda maiores, não é possível estabelecer com certeza que um progresso semelhante tenha sido feito no trato dos assuntos humanos; e provavelmente em todos os períodos, tal como hoje novamente, muitas pessoas se perguntaram se vale realmente a pena defender a pouca civilização que foi assim adquirida.
Pensar-se-ia ser possível um reordenamento das relações humanas, que removeria as fontes de insatisfação para com a civilização pela renúncia à coerção e à repressão dos instintos, de sorte que, imperturbados pela discórdia interna, os homens pudessem dedicar-se à aquisição da riqueza e à sua fruição. Essa seria a idade de ouro, mas é discutível se tal estado de coisas pode ser tornado realidade. Parece, antes, que toda civilização tem de se erigir sobre a coerção e a renúncia ao instinto; sequer parece certo se, caso cessasse a coerção, a maioria dos seres humanos estaria preparada para empreender o trabalho necessário à aquisição de novas riquezas. Acho que se tem de levar em conta o fato de estarem presentes em todos os homens tendências destrutivas e, portanto, anti-sociais e anticulturais, e que, num grande número de pessoas, essas tendências são suficientemente fortes para determinar o comportamento delas na sociedade humana.
Esse fato psicológico tem importância decisiva para nosso julgamento da civilização humana. Onde, a princípio, poderíamos pensar que sua essência reside no controle da natureza para o fim de adquirir riqueza, e que os perigos que a ameaçam poderiam ser eliminados por meio de uma distribuição apropriada dessa riqueza entre os homens, parece agora que a ênfase se deslocou do material para o mental. A questão decisiva consiste em saber se, e até que ponto, é possível diminuir o ônus dos sacrifícios instintuais impostos aos homens, reconciliá-los com aqueles que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação. É tão impossível passar sem o controle da massa por uma minoria, quanto dispensar a coerção no trabalho da civilização, já que as massas são preguiçosas e pouco inteligentes; não têm amor à renúncia instintual e não podem ser convencidas pelo argumento de sua inevitabilidade; os indivíduos que as compõem apóiam-se uns aos outros em dar rédea livre a sua indisciplina. Só através da influência de indivíduos que possam fornecer um exemplo e a quem reconheçam como líderes, as massas podem ser induzidas a efetuar o trabalho e a suportar as renúncias de que a existência depende. Tudo correrá bem se esses líderes forem pessoas com uma compreensão interna superior das necessidades da vida, e que se tenham erguido à altura de dominar seus próprios desejos instintuais. Há, porém, o perigo de que, a fim de não perderem sua influência, possam ceder à massa mais do que esta a eles; por conseguinte, parece necessário que sejam independentes dela pela posse dos meios de poder à sua disposição. Expressando-o de modo sucinto, existem duas características humanas muito difundidas, responsáveis pelo fato de os regulamentos da civilização só poderem ser mantidos através de certo grau de coerção, a saber, que os homens não são espontaneamente amantes do trabalho e que os argumentos não têm valia alguma contra suas paixões.
Conheço as objeções que serão levantadas contra essas afirmações. Dir-se-á que a característica das massas humanas aqui retratada, a qual se supõem provar que a coerção não pode ser dispensada no trabalho da civilização, constitui, ela própria, apenas o resultado de defeitos nos regulamentos culturais, falhas devido às quais os homens se tornaram amargurados, vingativos e inacessíveis. Gerações novas, que forem educadas com bondade, ensinadas a ter uma opinião elevada da razão, e que experimentarem os benefícios da civilização numa idade precoce, terão atitude diferente para com ela. Senti-la-ão como posse sua e estarão prontas, em seu benefício, a efetuar os sacrifícios referentes ao trabalho e à satisfação instintual que forem necessários para sua preservação. Estarão aptas a fazê-lo sem coerção e pouco diferirão de seus líderes. Se até agora nenhuma cultura produziu massas humanas de tal qualidade, isso se deve ao fato de nenhuma cultura haver ainda imaginado regulamentos que assim influenciem os homens, particularmente a partir da infância.
Pode-se duvidar de que seja de algum modo possível, pelo menos até agora, no presente estágio de nosso controle sobre a natureza, estabelecer regulamentos culturais desse tipo. Pode-se perguntar de onde virão esses líderes superiores, inabaláveis e desinteressados, que deverão atuar como educadores das gerações futuras, e talvez seja alarmante pensar na imensa quantidade de coerção que inevitavelmente será exigida antes que tais intenções possam ser postas em prática. A grandiosidade do plano e sua importância para o futuro da civilização humana não podem ser discutidas. É algo firmemente baseado na descoberta psicológica segundo a qual o homem se acha aparelhado com as mais variadas disposições instintuais, cujo curso definitivo é determinado pelas experiências da primeira infância. Mas, pela mesma razão, as limitações da capacidade de educação do homem estabelecem limites à efetividade de uma transformação desse tipo em sua cultura. Pode-se perguntar se, e em que grau, seria possível a um ambiente cultural diferente passar sem as duas características das massas humanas que tornam tão difícil a orientação dos assuntos humanos. A experiência ainda não foi feita. Provavelmente uma certa percentagem da humanidade (devido a uma disposição patológica ou a um excesso de força instintual) permanecerá sempre associal; se, porém, fosse viável simplesmente reduzir a uma minoria a maioria que hoje é hostil à civilização, já muito teria sido realizado — talvez tudo o que pode ser realizado.
É digno de nota que, por pouco que os homens sejam capazes de existir isoladamente, sintam, não obstante, como um pesado fardo os sacrifícios que a civilização deles espera, a fim de tornar possível a vida comunitária. A civilização, portanto, tem de ser defendida contra o indivíduo, e seus regulamentos, instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa. Visam não apenas a efetuar uma certa distribuição da riqueza, mas também a manter essa distribuição; na verdade, têm de proteger contra os impulsos hostis dos homens tudo o que contribui para a conquista da natureza e a produção de riqueza. As criações humanas são facilmente destruídas, e a ciência e a tecnologia, que as construíram, também podem ser utilizadas para sua aniquilação.
Fica-se assim com a impressão de que a civilização é algo que foi imposto a uma maioria resistente por uma minoria que compreendeu como obter a posse dos meios de poder e coerção. Evidentemente, é natural supor que essas dificuldades não são inerentes à natureza da própria civilização, mas determinadas pelas imperfeições das formas culturais que até agora se desenvolveram. E, de fato, não é difícil assinalar esses defeitos. Embora a humanidade tenha efetuado avanços contínuos em seu controle sobre a natureza, podendo esperar efetuar outros ainda maiores, não é possível estabelecer com certeza que um progresso semelhante tenha sido feito no trato dos assuntos humanos; e provavelmente em todos os períodos, tal como hoje novamente, muitas pessoas se perguntaram se vale realmente a pena defender a pouca civilização que foi assim adquirida.
Pensar-se-ia ser possível um reordenamento das relações humanas, que removeria as fontes de insatisfação para com a civilização pela renúncia à coerção e à repressão dos instintos, de sorte que, imperturbados pela discórdia interna, os homens pudessem dedicar-se à aquisição da riqueza e à sua fruição. Essa seria a idade de ouro, mas é discutível se tal estado de coisas pode ser tornado realidade. Parece, antes, que toda civilização tem de se erigir sobre a coerção e a renúncia ao instinto; sequer parece certo se, caso cessasse a coerção, a maioria dos seres humanos estaria preparada para empreender o trabalho necessário à aquisição de novas riquezas. Acho que se tem de levar em conta o fato de estarem presentes em todos os homens tendências destrutivas e, portanto, anti-sociais e anticulturais, e que, num grande número de pessoas, essas tendências são suficientemente fortes para determinar o comportamento delas na sociedade humana.
Esse fato psicológico tem importância decisiva para nosso julgamento da civilização humana. Onde, a princípio, poderíamos pensar que sua essência reside no controle da natureza para o fim de adquirir riqueza, e que os perigos que a ameaçam poderiam ser eliminados por meio de uma distribuição apropriada dessa riqueza entre os homens, parece agora que a ênfase se deslocou do material para o mental. A questão decisiva consiste em saber se, e até que ponto, é possível diminuir o ônus dos sacrifícios instintuais impostos aos homens, reconciliá-los com aqueles que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação. É tão impossível passar sem o controle da massa por uma minoria, quanto dispensar a coerção no trabalho da civilização, já que as massas são preguiçosas e pouco inteligentes; não têm amor à renúncia instintual e não podem ser convencidas pelo argumento de sua inevitabilidade; os indivíduos que as compõem apóiam-se uns aos outros em dar rédea livre a sua indisciplina. Só através da influência de indivíduos que possam fornecer um exemplo e a quem reconheçam como líderes, as massas podem ser induzidas a efetuar o trabalho e a suportar as renúncias de que a existência depende. Tudo correrá bem se esses líderes forem pessoas com uma compreensão interna superior das necessidades da vida, e que se tenham erguido à altura de dominar seus próprios desejos instintuais. Há, porém, o perigo de que, a fim de não perderem sua influência, possam ceder à massa mais do que esta a eles; por conseguinte, parece necessário que sejam independentes dela pela posse dos meios de poder à sua disposição. Expressando-o de modo sucinto, existem duas características humanas muito difundidas, responsáveis pelo fato de os regulamentos da civilização só poderem ser mantidos através de certo grau de coerção, a saber, que os homens não são espontaneamente amantes do trabalho e que os argumentos não têm valia alguma contra suas paixões.
Conheço as objeções que serão levantadas contra essas afirmações. Dir-se-á que a característica das massas humanas aqui retratada, a qual se supõem provar que a coerção não pode ser dispensada no trabalho da civilização, constitui, ela própria, apenas o resultado de defeitos nos regulamentos culturais, falhas devido às quais os homens se tornaram amargurados, vingativos e inacessíveis. Gerações novas, que forem educadas com bondade, ensinadas a ter uma opinião elevada da razão, e que experimentarem os benefícios da civilização numa idade precoce, terão atitude diferente para com ela. Senti-la-ão como posse sua e estarão prontas, em seu benefício, a efetuar os sacrifícios referentes ao trabalho e à satisfação instintual que forem necessários para sua preservação. Estarão aptas a fazê-lo sem coerção e pouco diferirão de seus líderes. Se até agora nenhuma cultura produziu massas humanas de tal qualidade, isso se deve ao fato de nenhuma cultura haver ainda imaginado regulamentos que assim influenciem os homens, particularmente a partir da infância.
Pode-se duvidar de que seja de algum modo possível, pelo menos até agora, no presente estágio de nosso controle sobre a natureza, estabelecer regulamentos culturais desse tipo. Pode-se perguntar de onde virão esses líderes superiores, inabaláveis e desinteressados, que deverão atuar como educadores das gerações futuras, e talvez seja alarmante pensar na imensa quantidade de coerção que inevitavelmente será exigida antes que tais intenções possam ser postas em prática. A grandiosidade do plano e sua importância para o futuro da civilização humana não podem ser discutidas. É algo firmemente baseado na descoberta psicológica segundo a qual o homem se acha aparelhado com as mais variadas disposições instintuais, cujo curso definitivo é determinado pelas experiências da primeira infância. Mas, pela mesma razão, as limitações da capacidade de educação do homem estabelecem limites à efetividade de uma transformação desse tipo em sua cultura. Pode-se perguntar se, e em que grau, seria possível a um ambiente cultural diferente passar sem as duas características das massas humanas que tornam tão difícil a orientação dos assuntos humanos. A experiência ainda não foi feita. Provavelmente uma certa percentagem da humanidade (devido a uma disposição patológica ou a um excesso de força instintual) permanecerá sempre associal; se, porém, fosse viável simplesmente reduzir a uma minoria a maioria que hoje é hostil à civilização, já muito teria sido realizado — talvez tudo o que pode ser realizado.
A arrogância da oração
Quando se chega ao limite do monólogo, aos confins da solidão, inventa-se — na falta de outro interlocutor — Deus, pretexto supremo de diálogo. Enquanto o nomeias, tua demência está bem disfarçada e ... tudo te é permitido. O verdadeiro crente mal se distingue do louco; mas sua loucura é legal, admitida; acabaria em um asilo se suas aberrações estivessem livres de toda fé. Mas Deus as cobre, as torna legítimas. O orgulho de um conquistador empalidece comparado à ostentação do devoto que dirige-se ao criador. Como se pode ser tão atrevido? E como poderia ser a modéstia uma virtude dos templos, quando uma velha decrépita, que imagina o Infinito ao seu alcance, eleva-se pela oração a um nível de audácia ao qual nenhum tirano jamais aspirou?
Sacrificaria o império do mundo por um só momento em que minhas mãos juntas implorassem ao grande Responsável de nossos enigmas e de nossas banalidades. Entretanto, esse momento constitui a qualidade corrente — e como que o tempo oficial — de qualquer crente. Mas quem é verdadeiramente modesto repete a si mesmo: “Demasiado humilde para rezar, demasiado inerte para transpor o limiar de uma igreja, resigno-me à minha sombra e não quero uma capitulação de Deus ante minhas orações.” E aos que lhe propõem a imortalidade, responde: “Meu orgulho não é inesgotável: seus recursos são limitados. Pensam, em nome da fé, vencer seu eu; na realidade, desejam perpetuá-lo na eternidade, pois não lhes basta esta duração presente. Sua soberba excede em refinamento todas as ambições do século. Que sonho de glória, comparado ao seu, não se revela engano e vã ilusão? Sua fé é apenas um delírio de grandeza tolerado pela comunidade, porque utiliza caminhos camuflados; mas seu pó é sua única obsessão: gulosos do intemporal, perseguem o tempo que o dispersa. Só o além é bastante espaçoso para suas cobiças; a terra e seus instantes parecem demasiado frágeis. A megalomania dos conventos supera tudo o que jamais imaginaram as febres suntuosas dos palácios. Quem não admite sua nulidade é um doente mental. E o crente, entre todos, é o menos disposto a consentir. A vontade de durar, levada até tal ponto, apavora-me. Recuso-me à sedução malsã de um Eu indefinido. Quero chafurdar-me em minha mortalidade. Quero permanecer normal.”
(Senhor, dá-me a faculdade de jamais rezar, poupa-me a insanidade de toda adoração, afasta de mim essa tentação de amor que me entregaria para sempre a Ti. Que o vazio se estenda entre o meu coração e o céu! Não desejo ver meus desertos povoados com Tua presença, minhas noites tiranizadas por Tua luz, minhas Sibérias fundidas sob Teu sol. Mais solitário do que Tu, quero minhas mãos puras, ao contrário das Tuas que sujaram-se para sempre ao modelar a terra e ao misturar-se nos assuntos do mundo. Só peço à Tua estúpida onipotência respeito para minha solidão e meus tormentos. Não tenho nada a fazer com Tuas palavras. Conceda-me o milagre recolhido antes do primeiro instante, a paz que Tu não pudeste tolerar e que Te incitou a abrir uma brecha no nada para inaugurar esta feira dos tempos, e para condenar-me assim ao universo, à humilhação e à vergonha de existir.)
Quando se chega ao limite do monólogo, aos confins da solidão, inventa-se — na falta de outro interlocutor — Deus, pretexto supremo de diálogo. Enquanto o nomeias, tua demência está bem disfarçada e ... tudo te é permitido. O verdadeiro crente mal se distingue do louco; mas sua loucura é legal, admitida; acabaria em um asilo se suas aberrações estivessem livres de toda fé. Mas Deus as cobre, as torna legítimas. O orgulho de um conquistador empalidece comparado à ostentação do devoto que dirige-se ao criador. Como se pode ser tão atrevido? E como poderia ser a modéstia uma virtude dos templos, quando uma velha decrépita, que imagina o Infinito ao seu alcance, eleva-se pela oração a um nível de audácia ao qual nenhum tirano jamais aspirou?
Sacrificaria o império do mundo por um só momento em que minhas mãos juntas implorassem ao grande Responsável de nossos enigmas e de nossas banalidades. Entretanto, esse momento constitui a qualidade corrente — e como que o tempo oficial — de qualquer crente. Mas quem é verdadeiramente modesto repete a si mesmo: “Demasiado humilde para rezar, demasiado inerte para transpor o limiar de uma igreja, resigno-me à minha sombra e não quero uma capitulação de Deus ante minhas orações.” E aos que lhe propõem a imortalidade, responde: “Meu orgulho não é inesgotável: seus recursos são limitados. Pensam, em nome da fé, vencer seu eu; na realidade, desejam perpetuá-lo na eternidade, pois não lhes basta esta duração presente. Sua soberba excede em refinamento todas as ambições do século. Que sonho de glória, comparado ao seu, não se revela engano e vã ilusão? Sua fé é apenas um delírio de grandeza tolerado pela comunidade, porque utiliza caminhos camuflados; mas seu pó é sua única obsessão: gulosos do intemporal, perseguem o tempo que o dispersa. Só o além é bastante espaçoso para suas cobiças; a terra e seus instantes parecem demasiado frágeis. A megalomania dos conventos supera tudo o que jamais imaginaram as febres suntuosas dos palácios. Quem não admite sua nulidade é um doente mental. E o crente, entre todos, é o menos disposto a consentir. A vontade de durar, levada até tal ponto, apavora-me. Recuso-me à sedução malsã de um Eu indefinido. Quero chafurdar-me em minha mortalidade. Quero permanecer normal.”
(Senhor, dá-me a faculdade de jamais rezar, poupa-me a insanidade de toda adoração, afasta de mim essa tentação de amor que me entregaria para sempre a Ti. Que o vazio se estenda entre o meu coração e o céu! Não desejo ver meus desertos povoados com Tua presença, minhas noites tiranizadas por Tua luz, minhas Sibérias fundidas sob Teu sol. Mais solitário do que Tu, quero minhas mãos puras, ao contrário das Tuas que sujaram-se para sempre ao modelar a terra e ao misturar-se nos assuntos do mundo. Só peço à Tua estúpida onipotência respeito para minha solidão e meus tormentos. Não tenho nada a fazer com Tuas palavras. Conceda-me o milagre recolhido antes do primeiro instante, a paz que Tu não pudeste tolerar e que Te incitou a abrir uma brecha no nada para inaugurar esta feira dos tempos, e para condenar-me assim ao universo, à humilhação e à vergonha de existir.)
Pensamentos (CIORAN)
As ‘‘fontes’’ de um escritor são suas vergonhas; quem não as descubra em si mesmo ou as
eluda está condenado ao plágio ou à crítica. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas
ficções que são as palavras para curar-se
Diariamente converso em particular com meu esqueleto, e isso minha carne nunca me perdoará
Minhas forças? Dissipei-as, empreguei-as todas em apagar de mim os vestígios de Deus. E
agora estou desocupado para sempre
Só é subversivo o espírito que põe em dúvida a obrigação de existir; todos os outros,
começando pelos anarquistas, pactuam com a ordem estabelecida
A história: manufatura de ideais, mitologia lunática, frenesi de hordas e de solitários, negação
de aceitar a realidade tal como é, sede mortal de ficções
Enquanto o homem está protegido pela demência, atua e prospera; mas, quando se livra da
tirania fecunda das idéias fixas, se perde e se arruina
Somos todos ridiculamente prudentes e tímidos:
o cinismo não se aprende na escola. O orgulho também não
Tentai ser livres: morrereis de fome. A sociedade só os tolera na condição de servis e de
déspotas; é uma prisão sem guardiões, da qual não se escapa sem perecer
Enquanto os que dormem começam a cada manhã um novo dia, para os que têm insônia
apenas é possível
o esquecimento, uma vez que vivem, noite e dia,
sem interrupção, o mesmo inferno
Conceber um pensamento, apenas um único pensamento, mas que fizesse em pedaços o
universo
Fino humor crítico
Histórias marítmas
Suave traição dos intelectuais
“Não existe diferença alguma entre os sonhos de um açougueiro e os de um poeta.”
“É o louco que existe em nós quem nos obriga à aventura. Se nos abandona, estamos
perdidos: tudo depende dele, inclusive nossa vida vegetativa; é ele quem nos convida
a respirar, quem nos obriga a tal, e é também ele quem empurra o sangue por nossas veias. Se ele se retirasse, ficaríamos sós! Não se pode ser normal e vivo ao mesmo tempo.”
“Longe de mim o desejo de perverter tuas esperanças: a vida se encarregará disso.”
“Se eu acreditasse em Deus, minha indiferença não conheceria limites: passearia completamente nu pelas avenidas.”
“Todo solitário é suspeito; um ser puro não se isola. Para desejar a intimidade de uma
cela é necessário ter a consciência pesada, é necessário ter medo de sua consciência.”
“A função dos olhos não é ver, e sim, chorar; e para ver, realmente, é preciso fechá-los:
é a condição do êxtase, da única visão reveladora, no momento em que a percepção se
esgota no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre.”
“QUERER significa manter-se a qualquer preço em um estado de exasperação e febre.”
“Tentai ser livres: morrereis de fome. A sociedade só tolera os servis e déspotas; é uma
prisão sem guardas, mas da qual não escapa ninguém sem perecer.”
“O pensamento é uma mentira, como o amor ou a fé. Pois as verdades são fraudes e as
paixões odores; e, no fim das contas, a escolha está entre aquele que mente e quele que
fede.
As ‘‘fontes’’ de um escritor são suas vergonhas; quem não as descubra em si mesmo ou as
eluda está condenado ao plágio ou à crítica. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas
ficções que são as palavras para curar-se
Diariamente converso em particular com meu esqueleto, e isso minha carne nunca me perdoará
Minhas forças? Dissipei-as, empreguei-as todas em apagar de mim os vestígios de Deus. E
agora estou desocupado para sempre
Só é subversivo o espírito que põe em dúvida a obrigação de existir; todos os outros,
começando pelos anarquistas, pactuam com a ordem estabelecida
A história: manufatura de ideais, mitologia lunática, frenesi de hordas e de solitários, negação
de aceitar a realidade tal como é, sede mortal de ficções
Enquanto o homem está protegido pela demência, atua e prospera; mas, quando se livra da
tirania fecunda das idéias fixas, se perde e se arruina
Somos todos ridiculamente prudentes e tímidos:
o cinismo não se aprende na escola. O orgulho também não
Tentai ser livres: morrereis de fome. A sociedade só os tolera na condição de servis e de
déspotas; é uma prisão sem guardiões, da qual não se escapa sem perecer
Enquanto os que dormem começam a cada manhã um novo dia, para os que têm insônia
apenas é possível
o esquecimento, uma vez que vivem, noite e dia,
sem interrupção, o mesmo inferno
Conceber um pensamento, apenas um único pensamento, mas que fizesse em pedaços o
universo
Fino humor crítico
Histórias marítmas
Suave traição dos intelectuais
“Não existe diferença alguma entre os sonhos de um açougueiro e os de um poeta.”
“É o louco que existe em nós quem nos obriga à aventura. Se nos abandona, estamos
perdidos: tudo depende dele, inclusive nossa vida vegetativa; é ele quem nos convida
a respirar, quem nos obriga a tal, e é também ele quem empurra o sangue por nossas veias. Se ele se retirasse, ficaríamos sós! Não se pode ser normal e vivo ao mesmo tempo.”
“Longe de mim o desejo de perverter tuas esperanças: a vida se encarregará disso.”
“Se eu acreditasse em Deus, minha indiferença não conheceria limites: passearia completamente nu pelas avenidas.”
“Todo solitário é suspeito; um ser puro não se isola. Para desejar a intimidade de uma
cela é necessário ter a consciência pesada, é necessário ter medo de sua consciência.”
“A função dos olhos não é ver, e sim, chorar; e para ver, realmente, é preciso fechá-los:
é a condição do êxtase, da única visão reveladora, no momento em que a percepção se
esgota no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre.”
“QUERER significa manter-se a qualquer preço em um estado de exasperação e febre.”
“Tentai ser livres: morrereis de fome. A sociedade só tolera os servis e déspotas; é uma
prisão sem guardas, mas da qual não escapa ninguém sem perecer.”
“O pensamento é uma mentira, como o amor ou a fé. Pois as verdades são fraudes e as
paixões odores; e, no fim das contas, a escolha está entre aquele que mente e quele que
fede.
LUDWIG VON MISES
“Acaso são compatíveis a onipotência e a onisciência? A onisciência pressupõe que todos os acontecimentos futuros já estão inalteravelmente determinados. Se existir a onisciência, a onipotência é inconcebível. A impossibilidade de alterar o predeterminado curso dos acontecimentos é uma restrição de poder incompatível com o conceito de onipotência; são limitados o seu poder e o seu controle sobre os fenômenos. A ação é uma manifestação do homem que está restringido pelos limitados poderes de sua mente, pelas características fisiológicas de seu corpo, pela vicissitudes de seu meio ambiente e pela escassez de fatores dos quais depende o seu bem-estar. É inútil aludir às imperfeições e fraquezas do ser humano, quando se pretende descrever um ente absolutamente perfeito. A PRÓPRIA IDÉIA DE PERFEIÇÃO ABSOLUTA É, SOB TODOS OS ASPECTOS, AUTOCONTRADITÓRIA. O estado de perfeição absoluta só pode ser concebido como algo completo, final e não sujeito a qualquer mudança. A menor mudança poderia apenas reduzir sua perfeição e transformá-lo num estado menos perfeito que o anterior; a simples possibilidade que ocorra uma mudança é incompatível com o conceito de perfeição absoluta. Mas a ausência de mudança - isto é, a completa imobilidade, imutabilidade e rigidez - é equivalente à ausência de vida. A vida e a perfeição são incompatíveis, como também o são a morte e a perfeição.
A linguagem dos homens que vivem e agem utiliza formas comparativas e superlativas ao comparar situações melhores e piores. A noção de absoluto não permite comparações; é uma noção limite. O absoluto é indeterminável, impensável e inexprimível. É UMA CONCEPÇÃO QUIMÉRICA. Não existe felicidade plena , nem pessoas perfeitas, nem eterno bem-estar. Qualquer tentativa de descrever um País das Maravilhas ou a vida dos anjos resulta em paradoxos insuperáveis. Em qualquer situação existem limitações e não perfeição; existem tentativas de superar obstáculos, assim como frustração e descontentamento.”
“Acaso são compatíveis a onipotência e a onisciência? A onisciência pressupõe que todos os acontecimentos futuros já estão inalteravelmente determinados. Se existir a onisciência, a onipotência é inconcebível. A impossibilidade de alterar o predeterminado curso dos acontecimentos é uma restrição de poder incompatível com o conceito de onipotência; são limitados o seu poder e o seu controle sobre os fenômenos. A ação é uma manifestação do homem que está restringido pelos limitados poderes de sua mente, pelas características fisiológicas de seu corpo, pela vicissitudes de seu meio ambiente e pela escassez de fatores dos quais depende o seu bem-estar. É inútil aludir às imperfeições e fraquezas do ser humano, quando se pretende descrever um ente absolutamente perfeito. A PRÓPRIA IDÉIA DE PERFEIÇÃO ABSOLUTA É, SOB TODOS OS ASPECTOS, AUTOCONTRADITÓRIA. O estado de perfeição absoluta só pode ser concebido como algo completo, final e não sujeito a qualquer mudança. A menor mudança poderia apenas reduzir sua perfeição e transformá-lo num estado menos perfeito que o anterior; a simples possibilidade que ocorra uma mudança é incompatível com o conceito de perfeição absoluta. Mas a ausência de mudança - isto é, a completa imobilidade, imutabilidade e rigidez - é equivalente à ausência de vida. A vida e a perfeição são incompatíveis, como também o são a morte e a perfeição.
A linguagem dos homens que vivem e agem utiliza formas comparativas e superlativas ao comparar situações melhores e piores. A noção de absoluto não permite comparações; é uma noção limite. O absoluto é indeterminável, impensável e inexprimível. É UMA CONCEPÇÃO QUIMÉRICA. Não existe felicidade plena , nem pessoas perfeitas, nem eterno bem-estar. Qualquer tentativa de descrever um País das Maravilhas ou a vida dos anjos resulta em paradoxos insuperáveis. Em qualquer situação existem limitações e não perfeição; existem tentativas de superar obstáculos, assim como frustração e descontentamento.”
30/03/2004
A Coisa .....
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
(Mario Quintana)
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
(Mario Quintana)
Amanhã a revoluçao de 64 faz aniversá¡rio. Acho que muita coisa foi incompreendida naquele episódio. Sou a favor de um revisionismo histórico total. A opiniãoo pública crucificou os militares, que hoje não passam de uns pobres coitados. Estão esquecidos, marginalizados, excluidos. Recebem uma bagatela como vencimento, e tamanho é o desprestígio que o presidente teve a desonra de chamá-los de um "bando". Só um militar para saber o que é ser incluído num "bando"... Enquanto que os guerrilheiros estão hoje no poder, recebendo indenizações milionárias, etc. Há quem acredite que lutavam pela democracia.... ha ha ha
A INUTILIDADE DOS LIVROS (Roberto Arlt)
Um leitor me escreve:
“Me interessaria muitÃssimo que V.S.ª escrevesse algumas notas sobre os livros que os jovens deveriam ler, para que aprendam e formem um conceito claro, amplo, da existência (não excetuando, é claro, a experiência própria da vida)â€�.
O CORPO NADA LHE PEDE...
O corpo não lhe pede nada, querido leitor. Mas, onde o senhor vive? Acredita, por acaso, por um minuto, que os livros lhe ensinarão a formar “um conceito claro e amplo da existênciaâ€�? Está enganado, amigo; enganado até dizer chega. O que os livros fazem é desgraçar o homem, acredite. Não conheço um só homem feliz que leia. E tenho amigos de todas as idades. Todos os indivÃduos de existência mais ou menos complicada que conheci haviam lido. Lido, desgraçadamente, muito.
Se houvesse um livro que ensinasse, veja bem, se houvesse um livro que ensinasse a formar um conceito claro e amplo da existência, esse livro estaria em todas as mãos, em todas as escolas, em todas as universidades; não haveria lar que, na estante de honra, não tivesse esse livro que o senhor pede. Percebe?
O senhor não percebeu ainda que se as pessoas lêem é porque esperam encontrar a verdade nos livros. E o máximo que podem encontrar num livro é a verdade do autor, não a verdade de todos os homens. E essa verdade é relativa... essa verdade é tão pequenininha... que é preciso ler muitos livros para aprender a depreciá-los.
OS LIVROS E A VERDADE
Calcule o senhor que na Alemanha publicam-se anualmente mais ou menos 10.000 livros, que abrangem todos os gêneros de especulação literária; em Paris ocorre a mesma coisa; em Londres, idem; em Nova York, igual.
Pense nisto:
Se cada livro contivesse uma verdade, uma só verdade nova na superfÃcie da Terra, o grau de civilização moral que os homens teriam alcançado seria incalculável. Não é assim? Agora, pense o senhor que os homens dessas nações cultas, Alemanha, Inglaterra, França, estão atualmente discutindo a redução de armamentos (não confundir com supressão). Agora, o senhor seja sensato por um momento. Para que serve uma cultura de dez mil livros por nação, despejada anualmente sobre a cabeça dos habitantes dessas terras? Para que serve essa cultura, se no ano de 1930, depois de uma guerra catastrófica como a de 1914, discute-se um problema que deveria causar espanto?
Para que serviram os livros, o senhor pode me dizer? Eu, com toda sinceridade, declaro que ignoro para que servem os livros. Que ignoro para que serve a obra de um senhor Ricardo Rojas, de um senhor Leopoldo Lugones, de um senhor Capdevila, para circunscrever-me a este paÃs.
O ESCRITOR COMO OPER�RIO
Se o senhor conhecesse os bastidores da literatura, perceberia que o escritor é um senhor que tem o ofÃcio de escrever, como outro, o de fabricar casas. Nada mais. O que o diferencia do fabricante de casas é que os livros não são tão úteis como as casas e, depois... depois que o fabricante de casas não é tão vaidoso como o escritor.
Em nossos tempos, o escritor se acha o centro do mundo. Conta lorotas à vontade. Engana a opinião pública, consciente ou inconscientemente. Não revê suas opiniões. Acredita que o que escreveu é verdade, pelo fato dele ter escrito. Ele é o centro do mundo. As pessoas que experimentam dificuldades até para escrever para a famÃlia acreditam que a mentalidade do escritor é superior à de seus semelhantes e está enganada no tocante aos livros e no tocante aos autores.
Todos nós, os que escrevemos e assinamos, o fazemos para ganhar o arroz-com-feijão. Nada mais. E, para ganhar o arroz-com-feijão, não vacilamos, às vezes, em afirmar que o branco é preto e vice-versa. E, além disso, às vezes até nos permitimos o cinismo de dar risada e de achar que somos gênios...
DESORIENTADORES
A maioria de nós que escreve, o que faz é desorientar a opinião pública. As pessoas buscam verdades e nós lhes damos verdades enganosas. O branco pelo preto. É doloroso confessá-lo, mas é assim. É preciso escrever. Na Europa, os autores têm seu público; para esse público, dão um livro por ano. O senhor pode acreditar, de boa fé, que em um ano se escreva um livro que contenha verdades? Não, senhor. Não é possÃvel. Para escrever um livro por ano é preciso contar lorotas. Dourar a pÃlula. Encher a página de frases.
É o ofÃcio, “o métierâ€�. As pessoas recebem a mercadoria e acreditam que é matéria-prima, quando se trata apenas de uma falsificação grosseira de outras falsificações que também se inspiraram em falsificações.
CONCEITO CLARO
Se o senhor quer formar “um conceito claro� da existência, viva. Pense. Aja. Seja sincero. Não engane a si próprio. Analise. Estude-se. O dia em que o senhor conhecer a si próprio perfeitamente, lembre-se do que lhe digo: em nenhum livro vai encontrar nada que o surpreenda. Tudo será velho para o senhor. O senhor lerá por curiosidade livros e livros e sempre chegará a esta fatal palavra terminal: “Mas se eu já tinha pensado isso�. E nenhum livro poderá lhe ensinar nada.
Salvo os que se escreveram sobre esta última guerra. Vale a pena conhecer esses documentos trágicos. O resto é papel...
El Mundo, 26/2/1930
Um leitor me escreve:
“Me interessaria muitÃssimo que V.S.ª escrevesse algumas notas sobre os livros que os jovens deveriam ler, para que aprendam e formem um conceito claro, amplo, da existência (não excetuando, é claro, a experiência própria da vida)â€�.
O CORPO NADA LHE PEDE...
O corpo não lhe pede nada, querido leitor. Mas, onde o senhor vive? Acredita, por acaso, por um minuto, que os livros lhe ensinarão a formar “um conceito claro e amplo da existênciaâ€�? Está enganado, amigo; enganado até dizer chega. O que os livros fazem é desgraçar o homem, acredite. Não conheço um só homem feliz que leia. E tenho amigos de todas as idades. Todos os indivÃduos de existência mais ou menos complicada que conheci haviam lido. Lido, desgraçadamente, muito.
Se houvesse um livro que ensinasse, veja bem, se houvesse um livro que ensinasse a formar um conceito claro e amplo da existência, esse livro estaria em todas as mãos, em todas as escolas, em todas as universidades; não haveria lar que, na estante de honra, não tivesse esse livro que o senhor pede. Percebe?
O senhor não percebeu ainda que se as pessoas lêem é porque esperam encontrar a verdade nos livros. E o máximo que podem encontrar num livro é a verdade do autor, não a verdade de todos os homens. E essa verdade é relativa... essa verdade é tão pequenininha... que é preciso ler muitos livros para aprender a depreciá-los.
OS LIVROS E A VERDADE
Calcule o senhor que na Alemanha publicam-se anualmente mais ou menos 10.000 livros, que abrangem todos os gêneros de especulação literária; em Paris ocorre a mesma coisa; em Londres, idem; em Nova York, igual.
Pense nisto:
Se cada livro contivesse uma verdade, uma só verdade nova na superfÃcie da Terra, o grau de civilização moral que os homens teriam alcançado seria incalculável. Não é assim? Agora, pense o senhor que os homens dessas nações cultas, Alemanha, Inglaterra, França, estão atualmente discutindo a redução de armamentos (não confundir com supressão). Agora, o senhor seja sensato por um momento. Para que serve uma cultura de dez mil livros por nação, despejada anualmente sobre a cabeça dos habitantes dessas terras? Para que serve essa cultura, se no ano de 1930, depois de uma guerra catastrófica como a de 1914, discute-se um problema que deveria causar espanto?
Para que serviram os livros, o senhor pode me dizer? Eu, com toda sinceridade, declaro que ignoro para que servem os livros. Que ignoro para que serve a obra de um senhor Ricardo Rojas, de um senhor Leopoldo Lugones, de um senhor Capdevila, para circunscrever-me a este paÃs.
O ESCRITOR COMO OPER�RIO
Se o senhor conhecesse os bastidores da literatura, perceberia que o escritor é um senhor que tem o ofÃcio de escrever, como outro, o de fabricar casas. Nada mais. O que o diferencia do fabricante de casas é que os livros não são tão úteis como as casas e, depois... depois que o fabricante de casas não é tão vaidoso como o escritor.
Em nossos tempos, o escritor se acha o centro do mundo. Conta lorotas à vontade. Engana a opinião pública, consciente ou inconscientemente. Não revê suas opiniões. Acredita que o que escreveu é verdade, pelo fato dele ter escrito. Ele é o centro do mundo. As pessoas que experimentam dificuldades até para escrever para a famÃlia acreditam que a mentalidade do escritor é superior à de seus semelhantes e está enganada no tocante aos livros e no tocante aos autores.
Todos nós, os que escrevemos e assinamos, o fazemos para ganhar o arroz-com-feijão. Nada mais. E, para ganhar o arroz-com-feijão, não vacilamos, às vezes, em afirmar que o branco é preto e vice-versa. E, além disso, às vezes até nos permitimos o cinismo de dar risada e de achar que somos gênios...
DESORIENTADORES
A maioria de nós que escreve, o que faz é desorientar a opinião pública. As pessoas buscam verdades e nós lhes damos verdades enganosas. O branco pelo preto. É doloroso confessá-lo, mas é assim. É preciso escrever. Na Europa, os autores têm seu público; para esse público, dão um livro por ano. O senhor pode acreditar, de boa fé, que em um ano se escreva um livro que contenha verdades? Não, senhor. Não é possÃvel. Para escrever um livro por ano é preciso contar lorotas. Dourar a pÃlula. Encher a página de frases.
É o ofÃcio, “o métierâ€�. As pessoas recebem a mercadoria e acreditam que é matéria-prima, quando se trata apenas de uma falsificação grosseira de outras falsificações que também se inspiraram em falsificações.
CONCEITO CLARO
Se o senhor quer formar “um conceito claro� da existência, viva. Pense. Aja. Seja sincero. Não engane a si próprio. Analise. Estude-se. O dia em que o senhor conhecer a si próprio perfeitamente, lembre-se do que lhe digo: em nenhum livro vai encontrar nada que o surpreenda. Tudo será velho para o senhor. O senhor lerá por curiosidade livros e livros e sempre chegará a esta fatal palavra terminal: “Mas se eu já tinha pensado isso�. E nenhum livro poderá lhe ensinar nada.
Salvo os que se escreveram sobre esta última guerra. Vale a pena conhecer esses documentos trágicos. O resto é papel...
El Mundo, 26/2/1930
Não tenho saco para escrever, nunca tive. A palavra escrita materializa nossos pensamentos, tenta torná-los definitivos, absolutos, perenes, o que me causa um certo pavor. Sempre que tento escrever, dispara em mim algum vírus da obsessão, algum perfecionismo vem à tona, transformando essa atividade num martírio, num eterno fazer e refazer, que leva qualquer mamífero a exaustão. Posso dizer também que todas as vezes que encarei essa empreitada, tinha alguma ponta de vaidade mal-digerida no comando, algum impulso exibicionista reivindicando seu espaço. Como diria o Eclesiates, "são tudo vaidades"... (Será que foi mesmo o Eclesiaste?)